26 de setembro de 2010

A SOLIDÃO E A TRISTEZA QUE O BULLYING TRAZ: uma história real

Nunca imaginei que um dia falaria de forma tão aberta sobre o bullying como farei agora.
Entretanto, acredito que uma experiência dolorosa não pode parar nela mesma.
Talvez  como um degrau, que em si mesmo não leva pra lugar nenhum, ficando a critério de quem por ele passa, subir ou descer, espero sinceramente, que esta experiência o ajude a ajudar uma criança ou adolescente que sofrem por causa do bullying.
Nascida numa família católica,
com um alto rigor moral, ouvindo pregações que falavam muito do céu e preparam muito pouco para a vida na terra, fui uma adolescente extremamente envolvida na comunidade religiosa dos meus pais.
Acreditava de coração sincero que as pessoas eram boas, que o sofrimento era válido de qualquer maneira e que eu deveria ser santa.
Só que eu vivia na terra, com pessoas imperfeitas, numa escola mista onde o respeito e a tolerância não eram importantes. Eu não sabia lidar com isso.
Na época, passava a novela Tieta, e Joana Fomm  fazia o papel da Perpétua.
Um professor, de brincadeira, olhava pra mim e dizia:
-Oh Perpétua!
E continuava conversando ou falando da aula e de repente:
- "Oh Perpétua, mais ce gosta mesmo de rezar. Ce só fica na igreja, não faiz mais nada naum?"
Quando saía da sala, brincava, tchau Perpétua!
E todo mundo da sala ria, normal,
Até eu ria.
Só que esta brincadeira, abriu espaço e caminho para que os "descolados" da sala, as meninas e os meninos que abalavam as noites e os dias também, começassem a me tomar pra capacho.
Eu era muito ingênua e eles se divertiam muito às minhas custas.
Próximo ao fim do ano, houve a famosa viagem de formatura que eu não participei porque minha mãe não deixou.
E lá aconteceu de tudo.
Claro, quem ia segurar aquela turminha? rsrs.
Chegaram empolgados e falando de fotos e arrumaram um jeito de colocarem no meu livro de Química, fotos de conteúdo pornográfico, porque todo mundo queria  ver a cara da Perpétua.
Pra minha sorte, uma amiga alcançou o livro antes de mim, achou o "raio" da foto, morreu de rir com carinha de safada (rsrs), senão eu morria do coração. rs
Bilhetinhos de um falso pretendente, isolamento, uma hora me tratavam bem, outra nem tanto.
Com isso, eu ficava muito insegura e ficava com medo de uma hora eu cair de verdade nas armações deles.
Hoje, com os meus 38 anos estou aprendendo a administrar o passado e ir seguindo em frente, mas por muitos anos eu fui a Perpétua.
Não conseguia ser feminina, não passava um batom, um esmalte, um brinco, parecia um mulambo, uma perpétua mulher horrorosa.
Foi muito triste, porque se eles me chamassem de Perpétua, mas eu me considerasse um mulherão, decidida, firme, com boa auto estima, poderia não ter tido quase nenhum problema.
Mas o problema existia em casa, porque eu não tinha com quem dividir aquele desconforto, aquele sofrimento contido.
Quando eu falava alguma coisa  vinham umas ideias loucas do tipo: conta pra diretora, fala que você não aceita brincadeira ou que você é serva de Deus.
Ou então falavam assim: deixa de ser boba, larga mão disso, não dá ouvido não, é só não ligar, mexem com você porque já viram que você é uma bobona.
Como não dar ouvido, eu tinha dois ouvidos que escutavam todos os dias as piadinhas, os insultos sutis e a brincadeira do professor que ajudava por fogo na história.

Foi muito difícil não encontrar ninguém pra me indicar um caminho onde eu pudesse me sentir segura e tranquila,especialmente, porque eu me considerava mesmo uma bobona.
Por conta disso, desenvolvi muitos problemas de ansiedade, dores crônicas, intestino preso e falta de controle dos esfíncters.
Levou muitos anos pra eu superar o medo de ser feia, de não ter namorado, de não ser experiente.
Isso é real.
O bullying traz consequências psicológicas e físicas muito graves se não for corrigido.
Não é honesto deixar uma criança ou adolescente nas mãos de pessoas cruéis, inseguras que precisam de zoar os outros pra terem certeza de que estão com a razão.

Se você é professor (a), por favor, fique atento.
Especialmente, não faça brincadeiras que estimulem a violência, a gozação ou qualquer ato de discriminação.

Se você é pai ou mãe, considere dar mais atenção ao que seus  filhos falam e demonstram. Isso evita gastos com  farmácia, com médicos e psicólogos.
As crianças precisam acreditar que o que ela fala e sente é importante.

É só um pedido de quem já sofreu com o bullying e sabe das dificuldades para vencer as marcas que ele causa.

Eu agradeço sua preciosa atenção.

Um grande abraço.

12 comentários:

  1. Que depoimento importante esse.

    Essa prática é abominável e cada vez mais frequente.

    Tenho o maior cuidado com Neno aqui em casa e fico de olho sempre.

    Porém, quando acontece algo, os colégios não tomam partido e isso estimula a disseminação!

    beijos,tudo de bom,lindo domingo,chica

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  2. Oi Lilian, vim agradecer e retribuir o carinho. Que texto, menina! Pior ainda um professor para validar a coisa toda, não? Acho que quando temos apoio em casa fica um pouco mais fácil sim. Eu fui muito tímida, sempre. Não sofri tanto quanto você, mas não vivi bem os anos de escola. Entendo a ansiedade de que fala, como entendo... Que bom que tem conseguido superar suas dores do passado.
    Um grande beijo.

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  3. Realmente Chica.
    Os colégios quando não são ativos no combate ao bullying, na verdade estimulam o problema, pois não cortam o mal pela raiz.
    E parabéns pelo cuidado com o Neno.
    Tem que ficar de olho mesmo viu Chica.
    Agradeço a sua visita e o seu precioso comentário.
    beijo e uma semana cheia de paz.

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  4. Tati,
    Seja muito bem vinda, querida.
    O carinho dispensado a você é verdadeiro e pra lá de merecido, pois é uma pessoa muito especial.
    Quanto a atitude do professor, é realmente um questão até polêmica, porque fica naquela: eu não fiz por mal, mas acabou causando o mal.
    Valeu Tati!
    Agradeço a visita e o comentário.
    Quanto a ansiedade, vamos tocando ela pra frente.
    beijos.

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  5. Oi Liliane

    Que desbafo, querida.
    Sinto muito por tudo que você passou, principalmente partindo de um professor tão hipócrita, que fere a imagem do mestre.
    Eu também tive problemas no meu tempo de escola. Era muito magra, alérgica a tudo e parecia estar sempre doente.
    Levava muitos apelidos e sofria muito com isso.
    Mas, ao contrário de você tinha apoio em casa, do meu pai e também dos meus irmãos.
    Do meu pai talvez por ser bem estudiosa, mas nunca fui quietinha, era bem moleca, e mesmo assim ele nunca me deixou abater.
    Dos irmãos porque nos protegíamos sempre. Mexer com um era mexer com todos. E vai-lhe pancada. rsrsrsrs
    Mesmo assim nunca foi fácil para mim.
    Enquanto educadora, e antes mesmo de se usar a palavra "bullying", sempre atentei para este fato.
    Hoje, notamos que a coisa está ficando violenta. Passa da "feia" brincadeira ao crime.
    Temos que tomar providências urgentes com nossos próprios filhos e alunos.

    Obrigada pelo carinho.

    Bjs no coração!

    Nilce

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  6. Minha querida amiga Liliane, bom dia!!!
    Que coisa mais triste esse preconceito chamado bullying, com certeza trás muitos problemas aos jovens que recebem esse cruel tratamento. Mais triste ainda saber que você, minha amiga, passou por tudo isso, que sua história sirva de lição para que muitas pessoas reflitam sobre esse tratamento horrível.
    Parabéns pela coragem de tornar público o seu casa, com certeza vai ajudar a muitos que estiverem passando por isso.
    Que Deus te ilumine, minha amiga!!!
    Abraços e muita paz em seu caminho!!!

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  7. Nilce,
    Que bom encontrar com você por aqui...
    Agradeço suas palavras porque reforça a necessidade de ficarmos atentos quanto a questão da violência que acontece dentro da escola.
    Como professora, seu esclarecimento sobre o assunto ajuda a prevenir situações desagradáveis, embora acredite que numa sala de 30 alunos fica complicado saber de tudo o que acontece.
    Entretanto, se o professor é atento e gosta do que faz, traz segurança e respeito para a classe.
    Um grande abraço, Nilce.
    Seja bem vinda.

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  8. Dú, meu "miguinho" querido.
    Pra você ver né, rapadura é doce mais não é mole não...rsrs
    Quando resolvi contar um pouquinho do que eu passei, embora tenha sido bem difícil pra mim, acreditei que uma experiência sempre é uma experiência.
    Sempre podemos aprender com ela.
    Eu estou aprendendo com você e com os amigos que estão comentando a enxergar outros lados da mesma questão.
    Isso é muito válido para o nosso crescimento.
    Agradeço muitíssimo sua amizade e carinho, sempre.
    Um abraço e boa semana.

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  9. Infelizmente isto continua a acontecer neste mundo egoista, se soberania e orgulho no coração de muitos.
    A sociedade está aí vivendo ainda das ilusões, do ter, das aparências, sequer se dando ao feito de ser, de buscar a paz, o amor a solidariedade humana. Até o dia em que as dores não lhe aliviarão o sofrimento que esses mesmo criam pra si mesmos.
    Somente o tempo pode definir tudo isto, quando as vidas se colocam em suas auto-penitências fazendo jus as cobranças que lhes surge.
    Porém veja. O Cristo passou por isto, uma mutidão o perseguia, sequer buscavam saber que homem era aquele e faziam seus julgamentos piores de ser.
    Caminhar erguer a cabeça e seguir. Jamais se abater, porque somente tu sabes quem sois e acredite, tudo ocorre para que desviamos de nossos caminhos na luta insensata da destruição.
    Mas o amor sempre vence. Eles um dia passarão e ós passarinhos em voo livre ao encontro da libertação.

    Belíssimo texto, embora a tristeza seja a marca do que desenvolveste.
    Refaça-se minha amiga e esqueça. Viva para o hoje, pois que o ontem te enriqueceu de aprendizado e sabedoria.

    Um lindo dia pra ti
    obrigado pela visita em meu espaço, o que me fez muito feliz. Volte sempre!

    Bjs

    Livinha

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  10. Livinha,
    Querida, seja bem vinda aqui neste espaço.
    Fiquei muito contente com suas palavras doces e sábias.
    Confortaram e me fizeram querer continuar em frente, com a certeza de que tudo sempre nos traz experiencia e sabedoria.
    Agradeço muito sua disponibilidade em comentar, o que trará para todos que lerem, muita esperança.
    Abraço carinhoso

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  11. Minha Cara Liliane
    como eu te compreendo! Também fui educada num meio semelhante embora não tão austero em casa. Eu, como não tinha amigas e era de poucas falas também fui criando uma imagem errada de mim. Nunca sofri essa pressão do bulling, mas sofri outras. Valeram-me mais tarde grandes amigas e colegas que sem o saberem, me ajudaram a superar as minhasinseguranças. A Amizade e mais tarde o Amor, foram a grande terapia da cura.Que os encontres também na tua vida! Bjs. Bombom

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  12. Bombom
    Fiquei emocionada com a força que seu comentário produz.
    Realmente, a amizade e o amor que conquistamos nos trazem cura, respeito, dignidade.
    Um abraço gigante de uma nova amiga.
    Fica com Deus.

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